Síndrome de Peter Pan ou, os homens que se recusam a Amadurecer

Imagem de um lago, no fim de tarde. Um homem pula do deck com os braços abertos.
Foto por Andrew Sharples no Unsplash

Normalmente relacionado ao masculino e observado majoritariamente em homens, a Síndrome de Peter Pan independe de gênero. O nome vem do personagem de J. M. Barrie, do início do século XX, que foge de casa e recusa-se a crescer. Já a síndrome supracitada começou a ser documentada na década de 80 pelo psicólogo Dr. Dan Riley em seu livro The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up. Embora até hoje não esteja listado na DSM-5¹ ou mesmo não reconhecido pela OMS², suas características são também vistas quando olhamos para o Transtorno de Personalidade Narcisista(TPN ou PNP³); indivíduos identificados com este último apresentam, além de manipulação e desvalorização alheia, um padrão particular de egoísmo, além de tenderem a ter um grau muito maior de auto importância e auto atribuição de legitimidade, tal qual os estudados pelo Dr. Kiley.

Características

Em 1997, o autor do primeiro livro sobre o tema, atualizando suas percepções e definindo alguns marcadores para isolar estes casos: paralisia emocional, lentidão, desafios sociais, evite de responsabilidades, relacionamentos femininos, masculinos e sexuais. Estes indicadores foram criticados por reforçar ideias patriarcais de gênero e sexualidade, além de obsoletos comparado à visão mais moderna na psicologia. O tema tornou-se popular desde a primeira publicação e, como muitos outros temas sérios, foi absorvido também pelo que chamo de “psicologia popular": muita gente, sem a devida formação para tal, tenta diagnosticar outras pessoas fundamentando suas teses em suas próprias interpretações do que seria a dita síndrome.

As pessoas assim referidas têm, em geral, dificuldades em manter relações sérias, assim como lidar com responsabilidades, por vezes evitando-as, resistindo a comprometerem-se com qualquer coisa ou pessoa. Além disso buscam constantemente por atividades ligadas tão somente ao próprio prazer e apresentam falta de ambição ou mesmo direcionamento para a vida.

Na observação profissional, as causas têm fundamentação na infância, seja pela falta ou excesso de cuidados parentais. Como mencionado, essa síndrome não é um diagnóstico clínico, mas algumas de suas características são comumente observadas, como problemas relacionados ao trabalho, ao lidar com responsabilidades e comprometimento. No tocante dos relacionamentos, estes indivíduos também têm complicações em vínculos de longo prazo, normalmente temem a solidão buscando a família mais próxima. Outros sinais são vistos como a desconfiança e as tendências narcisistas, a demonstrar muita atenção com a própria imagem, com pouco ou nenhum interesse em crescimento pessoal e o direcionamento para os erros alheios, evitando julgamentos a si mesmos.

Maturar, dia a dia

Ainda que pessoas identificadas nesta condição sejam distintas das demais, há à nossa volta inúmeras outras com variações sutis dos mesmos comportamentos. Aquela pessoa que trabalha contigo e, mesmo dentro de uma equipa, é o destaque por nunca assumir a responsabilidade de nada. Ou mesmo aquela outra pessoa para o qual tudo na vida é brincadeira, a extrapolar sempre os limites do bom humor. 

Obviamente a vida idealmente deve ser vivida de maneira leve, com diversão e prazer, em equilíbrio com a comunidade na qual estamos inseridos e com a atenção nas contas a pagar. Principalmente no que se refere às pessoas com as quais interagimos. O que observo é que há pessoas que, mesmo em idade avançada do espectro adulto, ou mesmo a ser classificados como idosos, desviam de suas responsabilidades sociais e profissionais, a colocar o próprio prazer acima de tudo. Por próprio prazer, não estou a falar de sexo ou bem-estar, mas sim de prazeres e confortos mais imediatos , como o buscado por uma criança, que não pensa em consequências.

Veja: priorizar-se é algo essencial a todos nós e, para nossa própria saúde, devemos ter sempre atenção e carinho com nosso espaço, tempo, emoções e mente. O que não nos deixa alheio ao mundo à nossa volta, pois nele estamos inseridos e interagimos com ele. Ou seja: idealmente nos priorizamos, cientes da sociedade, nos responsabilizando por nosso papel junto às pessoas com as quais partilhamos o dia-a-dia, nossos direitos e deveres, em um caminho de harmonia o qual damos o nome de maturidade.

Maturidade esta que muitas pessoas evitam conscientemente. Diferentemente das que descrevi antes, de maneira seletiva, querem manter-se verdes. Escolhem caminhos de conforto, de soluções simplórias até mesmo para sua própria compreensão. Outros indivíduos também apresentam um comportamento de tentar manipular tudo e todos, de maneira a ter sua própria vida imaculada, ou de tê-la completamente em zona de conforto. Tal qual como quando somos adolescentes e dizemos o que nossos pais querem ouvir, a fim de ficar até mais tarde na rua com os amigos, ou de esconder uma nota baixa da escola.

No espelho

Quando trilhamos o caminho da maturidade, que podemos descrever como a jornada da ciência de nós mesmos e de nossa comunidade, descemos profundamente no Autoconhecimento e enfrentamos inúmeras batalhas - a maioria contra nós mesmos. Nestes embates somos confrontados, principalmente, pelos aspectos de nossa personalidade que mais negamos. E ao longo dessa estrada encaramos justamente nossos "Peter Pans". 

No meu caminho tive várias batalhas abertas contra o visitante da terra-do-nunca. E tantas outras sutis, veladas, ou mesmo só de olhares. Digo-te que são embates que, após encerrados, me fazem pensar: "como fui infantil nessa situação". Mas algo que levo como" troféu" após cada uma dessas pelejas é que não volto a enfrentar essa mesma faceta do meu "eu jovem", a ser sempre um novo aprendizado. E a distanciar-me ainda mais do que eu nomeio agora como os desejos do imaturo.

Creio que não há alguém com por cento maduro. E nem deveria haver. A questão aqui são as pessoas que conhecem tão pouco de si mesmas que preferem manter-se, conscientemente ou não, com os comportamentos e vaidade pueris. Sem ter o vislumbre de alegrias a longo prazo, se apegam a prazeres imediatos sem medir consequências a si mesmos e, principalmente, das pessoas ao redor.

Caso considere que nada aqui se aplica a ti, sugiro que olhe com mais atenção, sem melindres e de maneira crítica, para si mesmo. E não se culpe, caso tenha se identificado com o que acabara de ler. Em ambos os casos, saiba que o infante sempre estará aí, cabe a ti decidir quando ignorá-lo e quando lhe dá a permissão de tomar o controle; ou mesmo se atende a um desejo juvenil, por entender que o momento pede exatamente isso, independentemente de sua idade. O importante é lembrar sempre de devolver a criança ao lugar em sua história ao qual pertence, e manter o vosso “eu atual” com o timão de sua nau.

Voar pelo céu é sedutor, e por vezes precisamos mesmo de somente voar, mas a vida ainda acontece e avança com os pés no chão.


¹ DSM: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: ferramenta ouro na taxonomia de transtornos mentais abordados pela psicologia e psiquiatria, desenvolvido pela Associação Americana de Psiquiatria. (Wikipedia)

² OMS: Organização Mundial da Saúde (ou WHO, World Health Organisation)

³ Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) ou Perturbação Narcísica da Personalidade (PNP): é um transtorno de personalidade catalogado no DSM, caracterizada por sentimentos exagerados de autoimportância, uma necessidade excessiva de admiração, e uma falta de compreensão dos sentimentos dos outros. As pessoas afetadas muitas vezes passam muito tempo pensando em alcançar poder ou sucesso ou sobre sua aparência. Eles, muitas vezes, se aproveitam das pessoas a seu redor. O comportamento normalmente começa na idade adulta, e ocorre em uma variedade de situações. (Wikipedia)

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