Nosso sangue é vermelho

Em 2018 escrevi o texto Empatia e Respeito. Nesse texto, abordo temas como preconceito e agressões por diferenças físicas e comportamentais. Este tipo de texto não deveria ser necessário, mas o é - e vou tocar nesse assunto o quanto for necessário. Parte do motivo de escrever esta série Quem és? está em justamente apresentar esta maneira mais simples e natural de encarar a vida. E parte disso é viver entre outras pessoas.
Portanto, não vou no focar no que nos separa, mas com foco no que nos une.
Nossa história recente
Nos últimos anos, desde o texto citado, também houve muita mudança aqui dentro. Terapia, Covid, imigração, reconciliação e, sobretudo, aprendizado. Não o da academia, ou mesmo técnico - embora tenha crescido nesse âmbito também. Mas os principais ensinamentos certamente vieram de simples interações com as mais diversas pessoas. Completamente diferentes entre si. Da psicóloga a quem limpa as ruas, de um velho amigo à senhora no metro, da pessoa a dividir mesa ao colega de trabalho do outro lado do mundo. E isso me abriu a cabeça para outras interações com as quais não havia tido contato antes.
Outro fenômeno dos últimos anos é um movimento quase tão forte quanto a liberdade que pessoas pouco ou não representadas tiveram para se expressar livremente. O julgamento social, como o chamo, é a prática de aplicar juízo, comumente não embasado, a qualquer ato ou característica de outrem que não seja adequado ao conceito do julgador; abertamente, a fim de causar desconforto ou cancelamento ao julgado. Com a crescente onda de pseudo conservadorismo, este julgamento torna-se um massacre aberto a quem é “diferente”.
O diferente, para estes “cidadãos”, não está atrelado à mera diferênça física ou biológica, ou mesmo a alguma divergência ideológica. Para este recorte da população há uma suposta superioridade deles para os demais. Já viste um “cidadão de bem a considerar alguém melhor? Somente as divindades, ou alguém que eles considerem como tal.
Quem define o que torna uma pessoa melhor que outra? O que é essa definição de virtuosidade, que contempla o homem branco bem sucedido, que não faz a mais vaga ideia dos sonhos de seus filhos, mas ignora completamente nesta equação o casal de mulheres negraas que amam incondicionalmente sua filha adotada? Seria a lei? Não, pois esta define o que é aceitável ou não no convívio em sociedade. A bíblia? Para além de inúmeras palavras sobre humildade, uma passagem em Marcos 12:31, que sempre me lembro, é:
(…) Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.
A diferença que nos une
Não há o que nos torne melhor, ou pior. Nem mesmo um criminoso, o qual transgride a lei e é julgado e condenado por tal ato, quanto a viver em sociedade; em comparação a qualquer outro indivíduo, este somente detém para si o status de condenado, enquanto sua pena perdurar - ao menos assim o deveria ser.
A partir deste conceito, de que não há superioridade entre indivíduos, somos então todos iguais? Obviamente não. E isto é lindo! Oito mil milhões de indíduos diferentes neste mundo! Cada qual com suas vivências, experiências, gostos, ódios, amores e individualidades. Cada ser é um universo por sí só. Se há algo semelhante em toda essa gente, é que somos diferentes.
Irmãos gêmeos são distintos entre si. Pessoas em cantos opostos do globo podem ter as mesmas ideias e sonhos, sem nunca terem conhecimento um do outro. Esta imensidão de possibilidades me fascina todos os dias!
Não é possível evoluir se todos a sua volta são exatamente como si. Já à luz das diferenças, nasce uma infinidade de possibilidades. Semelhanças podem definitivamente nos aproximar, estou certo disso. Mas quando algo novo, fora de nossa esfera de compreensão, se apresenta… Ah, é como vislumbrar uma aurora, Boreal ou Austral. Nesse momento vem de pronto o questionamento: “Por que não me permiti viver isto antes?”.
Somos, parte instintivamente, parte socialmente, levados a nos afastar do diferente em um primeiro momento. Mas quando deixamos as amarras que podemos para trás, e permitimos que o diferente nos fascine ao invés de repulsar, e perceber que também somos diferentes ao outro, tantas coisas tornam-se tão mais fáceis.
Não há motivo algum que nos distancie de qualquer indivíduo, senão por seu caráter, que podemos, ou não, aceitar, conforme tenhamos acesso a tal. Qualquer coisa diferente disto é mero preconceito.
Ao ponderarmos melhor, que semelhança mais fascinante há, senão o que corre em nossas veias, a fazer fluir nossa vida?

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