Morte e Vida

Não escrevo por aqui há quase um ano. Até comecei dois novos textos, pouco depois do último. O impacto da motivação de um deles é justamente o que me deixou longe de escrever, postar em redes sociais e, até certo nível, me afastar das pessoas. Mas a vida nos surpreende todos os dias, não?
Amor de Deusa, Amor de Vó
No dia 26 de Agosto de 2025 minha amada avó, Bartira, voltava em essência para a natureza. Em lembrança dos bons dias, das risadas, do colo bom de vó, das boas histórias. Lembranças de toda uma vida de uma mulher que amou o mundo e a vida, como deve ser o amor: leve e simples. Com sua simplicidade de ser e de viver, com aquele coração que não cabia dentro do próprio peito. Ela era a pessoa para estar perto quando queríamos nos sentir bem.
Pensei em escrever um texto para confortar meus parentes, sobre como lidar com a morte. Quem dera eu pudesse ter a paz de espírito de poder tocar os corações de cada um dos meus primos, seus filhos, meus tios, minha mãe e meu irmão. No velório tentei focar muito as atenções na vida dela, tentando dar motivos para que meus familiares sorrissem, trazendo recordações das boas coisas que vivemos juntos. Estava sofrendo também por dentro. Deixar as cinzas dela em um belo jardim, como era seu desejo, foi das coisas mais doloridas que já fiz - era a despedida física de fato.
Creio que me afastei de todo mundo por uma questão de algo ter quebrado aqui dentro quanto às relações humanas. Tentei entender o que acontecia e a pensar sobre o fim da vida. Seja das pessoas próximas, das não tão próximas, das pessoas que não gosto e da minha própria vida. Quero expandir contigo o sentimento do luto e como passei a lidar com ele no dia-a-dia.
Não é sobre o que acredito do pós-vida, no sentido de fé, mas há sim um "pós-vida", do qual falarei adiante.
Luto
O processo natural e a experiência emocional, cognitiva e comportamental desencadeada por uma perda significativa - por norma de uma pessoa próxima. Na cultura euro-americana, comumente ligamos este sentimento à dor e tristeza. Costumamos nos vestir de preto, funerais têm um tom triste pois todos ali compartilham da dor. O que mais ouço nesses momentos é que "não podemos mais contar com essa pessoa" e "a sua falta será sentida".
Por vezes o sentimento de luto também se manifesta com a raiva. Mortes que tenham sido trágicas ou mesmo decorrentes de enfermidades, levando a um sentimento de impotência, desencadeando a cólera antes mencionada. Não há nada de errado aqui. Pelo contrário, expressar nossos sentimentos é essencial para que isso não se acumule e torne-se algo pior.
Em outras culturas, como Zulu e Xhosa do sul da África, o velório é encarado mais como um acompanhamento do falecido; seus pertences são limpos e a família faz cortes de cabelo, em uma demonstração de que a vida continua. A ancestralidade é um fator importante, pois o falecido se torna um ancestral, ponto igualmente importante em outras culturas africanas. Muitas delas focam o luto na celebração da vida da pessoa falecida.
Na Índia, a morte não é encarada como um fim, mas uma transição; a cor branca é utilizada, simbolizando o momento de paz para a família dos enlutados. No Japão as manifestações são mais no sentido da memória da pessoa falecida do que na expressão da tristeza.
Passei por diversos lutos. Reprimi as lágrimas publicamente enquanto chorava rios por dentro. No luto da minha vó foi diferente. Não reprimi nada. Dessa vez, embora triste com a partida, estava genuinamente alegre por ter tido a oportunidade de conhecer aquela mulher incrível em vida. Celebrei a vida dela assim que fui capaz.
A morte chegará para cada um de nós também, mais cedo ou mais tarde. Faz parte do que chamamos de Vida. Mas é justamente o que construímos em vida que faz nosso fim ter significado.
Meu pai partiu deste mundo cedo demais, hoje sou mais velho do que ele jamais fora. Em sua simplicidade, em seus erros, em suas virtudes e, principalmente, em seus valores, é um homem do qual eu sinto falta. Muita. Seus valores se perpetuaram na minha vida. Os da minha avó também. A jornada deles, em parte, faz parte da minha composição. A essência deles não desapareceu com seus corpos. Se perpetua.
Vida, Maia, Vida
Ah, a Vida! Em meados de Março deste 2026 uma suspeita que pairava sobre Mary e eu se confirmou: ela está grávida! Eu que sonhei a vida inteira em ser pai fui contemplado com a maior das graças. Quando escrevo este texto estamos na vigésima semana de gestação da nossa filhinha, a Maia. Estou no modo contemplador de barriguinha da mamãe, que deseja bom dia e bons sonhos para a nossa bebê.
O anúncio de uma nova vida chegando traz toda uma nova experiência. Desde os cuidados com a gestação ao planejamento do berço, as assustadoras contas de fraldas que um bebê usa. Só de pensar em acompanhar os primeiros meses, sorrisos, passos já me fazem encher os olhos de lágrimas - de alegria. Essa é uma vida e uma história que quero acompanhar de perto, por quanto tempo eu puder.
A história da Maia começou desde antes mesmo do seu nascimento. O acompanhamento das consultas de pré-natal e as ultrassonografias. Não preciso dizer que chorei muito ao ouvir o seu coração bater, ao ver seus chutes e ver que nossa filhinha está crescendo bem. Quem sabe um dia ela leia isto e saiba que, desde agora, honro muito sua vida!
Maia e Bartira estão conectadas, mesmo tendo nascido com 86 anos de diferença. Biologicamente, uma carrega a genética e os traços de povos originários da outra, passados para minha mãe, então para mim e agora para a pequena; também dos meus avós paternos, do meu avô e de toda ancestralidade da Mary, com uma mistura de povos distintos e distantes entre si, mas tão unidos agora em um só ser.
Maia herda também nossa história. Nunca como fardo, não permitirei isso. Ela será uma pessoa que não precisa errar com meus erros - mas sim, os conhecerá. Assim como os de Mary e dos nossos pais. Ela tem sua própria história, que terá todos os aprendizados, alegrias, superações e tudo que ela terá a viver. Quero proporcionar a ela, assim como ao meu enteado Arthur, todo apoio para que construa sua própria história; não à minha maneira, mas como quiser que seja. Ciente do que a antecedeu, livre para voar.
Nossa pequena Maia, a quem um dia quero contar uma das histórias mais bonitas que conheço: a de uma capixaba que se mudou muito jovem para São Paulo, teve uma filha e um filho, fez de tudo para sobreviver e criar bem sua família; ela levou a vida sempre simples e com amor; Amor esse que temos sempre que revisitar e aprender com ele; essa capixaba teve netos e fazia "soldadinhos" de arroz, feijão e farinha como maneira lúdica para eles no almoço; ela também acolhia as pessoas, mesmo as que a feriram, ouvia sempre com atenção todo mundo e aprendia sempre em um mundo que mudou tanto; que em sua simplicidade, via beleza mesmo nas coisas que não compreendia tão bem; adorava novelas e seu cafézinho com leite e açúcar; ela voltou para a Terra pouco tempo antes da filha do seu neto mais velho nascer, mas a presenteou com o amor mais belo, amor de bisavó, amor de Deusa.
---
Eu as honro, minha avó Bartira e minha filha Maia.
